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O PODER DA FÉ NOS TRATAMENTOS DA FERTILIDADE

26 de outubro de 2016
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Arnaldo Schizzi Cambiaghi

 

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Capítulo do Livro “ FERTILIDADE NATURAL” editado pelo IPGO de autoria de Arnaldo Schizzi Cambiaghi e Daniella S. Castelotti . editora Lavidapress – Autor do capítulo; Dr. Frederico Camelo Leão, Médico Psiquiatra e pesquisador do NEPER (Núcleo de Estudos Espirituais e Religiosos) – USP.

 

Fé e Religiosidade

 

A fé e a religiosidade podem colaborar com o tratamento de Infertilidade? Recentes pesquisas científicas se dedicam a investigar as relações entre saúde e religiosidade. Muitos pesquisadores afirmam que existe uma relação positiva entre os efeitos da fé e a religiosidade na qualidade de vida do ser humano. Desde 1983, a Organização Mundial da Saúde amplia seu conceito para além dos aspectos fisiológicos, incluindo as dimensões espirituais e sociais do indivíduo. A editora chefe de uma das mais importantes revistas científicas internacionais, American Journal of Psychiatry, Nancy Andreasen, aponta para o fato de que os médicos devem se importar não só com o corpo físico do paciente, mas também com sua espiritualidade. Ou seja, a cientista nos lembra que os seres humanos são dotados de corpo e alma. Mas, pode-se perguntar, como uma vida espiritual saudável pode contribuir para a saúde do corpo?

 

A PESQUISA DA RELIGIOSIDADE NA MEDICINA

 

No Brasil, a tese de Livre-Docência do psiquiatra e professor da USP, Francisco Lotufo Neto, afirma que ter uma orientação religiosa intrínseca pode ser benéfico à saúde mental. Lotufo Neto nos fala que os tratamentos devem respeitar as inclinações espirituais de seus pacientes e, para isso, o médico deve estar familiarizado com diferentes temas da religião e as atitudes religiosas de seus pacientes. Atualmente existem diversos centros de pesquisa científica que se dedicam a conduzir investigações sobre as relações entre saúde e espiritualidade. Nos EUA, por exemplo, as universidades George Washington e Duke têm centros de pesquisa em espiritualidade e saúde. Outros centros como Harvard Medical School e o Mind/Body Medical Institute of Deaconess Hospital, em Boston, conduzem cursos destinados a examinar as relações entre práticas médicas e religião. Outra referência importante é o curso oferecido pelo Johns Hopkins Medicine: Spirituality and Medicine Institute. Na Europa, The Spirituality and Psychiatry Special Interest Group do Royal College of Psychiatrists se dedica a pesquisas sobre as interferências espirituais na saúde mental. Fundado em 1999, tem 675 pesquisadores associados e é dirigido por Andrew Sims. Em recente artigo, Sims apresenta um estudo histórico das relações entre Medicina e espiritualidade na Inglaterra. Sua argumentação inicia a partir de uma frase do poeta do século XVIII, William Cowper (1731-1800): Deus movese de forma misteriosa. Muitos dos médicos da primeira metade do século XX adotavam essa frase como premissa básica em suas condutas e evitavam desenvolver pesquisas investigativas das relações entre saúde e fenômenos religiosos. O panorama desenvolvido por Sims revela que houve uma série de mudanças no paradigma de conduta médica em relação a hábitos e crenças religiosas. Nos anos 50, a Medicina via os interesses espirituais dos pacientes com suspeita e freqüentemente com hostilidade. Os psiquiatras acreditavam que a religião, muitas vezes, era prejudicial à saúde. A Igreja, por outro lado, desacreditava a psiquiatria, por esta “desencaminhar as pessoas”. Sims nos conta que o preconceito da Igreja contra os médicos está presente até mesmo nas escrituras. Tal conflito pode ser visto na prescrição de remédios. A palavra farmacologia vem grego pharmakeia. No livro do Apocalipse 18:23, o termo pharmakeia é usado com o significado de feitiçaria, magia negra (sorcery). Na década de 60, o sentimento religioso foi freqüentemente igualado com a neurose. A opinião religiosa dos pacientes não era considerada importante, e havia poucas tentativas de colaboração entre médicos e líderes religiosos na ajuda a pacientes. As primeiras mudanças nesse cenário surgem nos anos 70, quando alguns pesquisadores começam a se especializar na investigação das inter-relações entre os conteúdos religiosos e a prática médica. Durante os anos 80, um pequeno grupo de pesquisadores já passa a considerar o estudo da sobreposição entre a fé religiosa e sintomas a um campo de investigação legítimo. Entre os pioneiros nas investigações entre religiosidade e saúde, destaca-se David B. Larson, que dedicou vinte anos à pesquisa dos efeitos que a fé exerce na saúde. Suas análises revelaram que pacientes com fé cristã têm menos estresse, menor taxa de ataque cardíaco e são menos propícios a cometer o suicídio. Antes de mais nada, é importante ressaltar o fato de que no início das pesquisas de Larson, havia ainda mais preconceito contra as manifestações de religiosidade entre os pacientes do que hoje em dia. Seus estudos contribuíram para mudanças na insensibilidade quanto às representações de experiências religiosas e espirituais presentes na versão 3 do Diagnostic and Statistical Manual, (DSM-III- R) em relação à versão DSM-IV. Um dos mais fecundos pesquisadores atuais nesse campo é, o já citado, Harold G. Koenig, da Universidade de Duke, Carolina do Norte. Editor das revistas científicas International Journal of Psychiatry in Medicine e Research News & Opportunities in Science and Theology, Koenig é também autor de verdadeiros tratados na abordagem interdisciplinar saúde, religião e espiritualidade. Handbook of Religion and Health: A Century of Research Reviewed, coletânea organizada por Koenig em conjunto com Michael E. McCullough e David B. Larson, reúne vários artigos que discutem de forma crítica as relações entre religião e saúde física e mental. Entre as patologias analisadas estão: ansiedade, depressão, câncer, doenças coronárias, hipertensão, disfunção no sistema autoimune, entre outras. Este livro fornece uma revisão detalhada e crítica das pesquisas conduzidas entre os anos de 1990 e 2000, também avalia o relacionamento entre a religião e efeitos mentais e físicos na saúde. Além das publicações, Koenig é diretor e fundador do Centro para o Estudo da Religião/Espiritualidade e Saúde, na Duke University, que tem por objetivo ampliar a compreensão a respeito da saúde e bem-estar. Nesse sentido, promove debates interdisciplinares nas áreas de saúde, religião, ética e espiritualidade. A abordagem de pesquisa é holística e inclusiva. O Instituto Mind/Body Medical da Universidade de Harvard se destaca por conduzir pesquisas a respeito das relações entre estresse e saúde. O presidente fundador, Herbert Benson, M.D., é autor de mais de 170 artigos e 10 livros. Um dos pioneiros nos estudos das relações corpo/ mente na Medicina, Benson enfatiza a importância da fé na reposta de relaxamento. A fé em uma força eterna ou força transcendente propicia um bem-estar e pode neutralizar os efeitos prejudiciais do estresse, bem como de preocupações nocivas. Além disso, Benson também aponta as relações entre espiritualidade e cura. Outro pesquisador que tem atuado nessa linha de investigação é William Harris do Saint Luke's Hospital, cidade de Kansas. Harris dirigiu uma pesquisa sobre a evidência científica dos efeitos de preces intercessórias no resultado da evolução clínica de pacientes numa unidade de cuidados coronarianos. John Astin, do Stanford University Center for Research in Disease Prevention, atua na área da psicologia da saúde. Astin fez uma revisão sistemática da cura à distância para todo tipo de tratamento médico. Em 57% dos ensaios clínicos, encontrou efeitos positivos. Quando se pensa na associação entre religião e saúde, talvez, a primeira idéia que vem à mente diz respeito aos efeitos negativos advindos da religiosidade exacerbada. O fanatismo, por exemplo, faz com que pessoas religiosas muitas vezes excluam ou neguem condutas médicas. É bastante conhecido o fato de que seguidores de determinadas religiões se neguem a realizar transfusão de sangue ou aceitar transplantes de órgãos. Além disso, vários indivíduos desenvolvem sintomas derivados de uma interpretação distorcida de preceitos religiosos. Entre os efeitos psicológicos negativos mais comuns, observa-se: geração de culpa, diminuição de autoestima, repressão de raiva, ansiedade e medo através de crenças punitivas; favorecimento de dependência, conformismo e sugestionabilidade; desenvolvimento de intolerância e hostilidade aos que não seguem a mesma religião, etc. Porém, como vimos, os aspectos negativos derivam de posturas fanáticas e distorções. As religiões, de um modo geral, fundamentam suas crenças numa força divina e criadora. Pregam o bem e a justiça e criam códigos morais que funcionam como um guia de ajuda e superação nos tratamentos das doenças. Numa perspectiva holística, o equilíbrio físico e psíquico está associado a forma pela qual o indivíduo transforma seus pensamentos, sentimentos e emoções. Assim, atitudes valorizadas em diversas religiões, tais como generosidade, altruísmo, solidariedade, perdão, amor, compaixão, contribuem para a produção de hormônios, endorfinas e melhoram a imunidade. As narrativas que relatam as relações entre fé e saúde são bastante abundantes no Evangelho. Nas escrituras, vemos casos como a cura de cegos, leprosos, etc. Todos os relatos se fundamentam na esperança aliada à fé, na confiança em Deus. No evangelho de São Mateus, Jesus afirma que quem tiver fé do tamanho de um grão de mostarda, pode mover montanhas e nada lhe será impossível (17:20). Segundo o espiritismo, é necessário que existam também merecimento e reforma interior para que as curas se realizem. Por reforma interior, está-se falando em mudanças de comportamento que visem um aprimoramento do caráter e da conduta. Mas, quais seriam as relações entre fertilidade e fé? No passado, várias culturas já afirmavam a presença de uma forte ligação entre esses dois temas. São bastante conhecidos os mitos que nos contam sobre a existência de deusas da fertilidade. Nesse sentido, o homem sempre buscou ajuda e força em seres divinos para as questões misteriosas que acompanham a fertilidade. No imaginário grego antigo, Deméter é a deusa da agricultura. Filha de Crono e Réia, Deméter se distingue de Geia (Terra, no sentido cosmogônico) por ser a divindade da terra cultivada. O culto à Deméter ocupava o centro dos mistérios iniciáticos de Eleusis. Por representar os ciclos que se sucedem em fases de morte e renascimento, a agricultura é modelo de um universo que se movimenta em um eterno recomeçar. Assim, Deméter é a imagem dos movimentos que levam o homem a uma compreensão que se estende além da materialidade. Na narrativa mítica, Deméter tem uma filha, Perséfone que foi raptada pelo deus dos mundos subterrâneos, Hades. Deprimida e com saudades de Perséfone, Deméter se retira. Nessa hora, a terra se torna ressentida e estéril. O mito, porém, continua e com a volta de sua amada filha, a natureza se rejubila e chega a primavera. Esse movimento de morte e alegria se repete infinitamente nas estações do ano. Assim, o mitologema Deméter-Perséfone nos revela uma importante característica da fertilidade, associando esse tema aos ciclos sucessivos. Além disso, pode-se associar a essa narrativa a importância de se vencer as dificuldades a partir da esperança. O culto à deusa é a renovação da fé nos movimentos alternados e a esperança de uma nova primavera. Não estariam esses ciclos sendo revividos a cada mês no organismo da mulher? Em outras palavras, a religiosidade promove e estimula um estilo de vida saudável, uma visão mais positiva da vida, com ênfase na esperança de dias melhores, satisfação na vida, altruísmo, bem-estar, entre outras atitudes que geram uma boa qualidade de vida. No entanto, é importante frisar que cada um de nós deve exercer a responsabilidade que tem sobre sua própria vida. Devemos utilizar nossos recursos interiores na busca de equilíbrio. Não podemos negligenciar os cuidados pessoais. Essas atitudes fortalecem nossa vida espiritual. Além disso, é preciso que pensemos em fé e religião diante de uma postura complementar aos tratamentos médicos da Ciência contemporânea. Negar a aplicação dos procedimentos médicos atuais seria assumir uma visão exacerbada da religião e, portanto, em desequilíbrio com a totalidade que nos compõe.

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