Encontre-nos nas redes sociais:

Instagram da IPGO
Zika Vírus
Espaço Criança
11 Razões para o médico confiar seus pacientes ao IPGO

Use o sistema de busca.

“O sucesso do tratamento de fertilização assistida não se restringe ao teste de gravidez positivo. Muito mais que isso, é a garantia de que a mãe e o bebê permanecerão saudáveis desde o início dos procedimentos até o nascimento da criança. Afinal, de nada adianta alcançar rapidamente a gravidez única, gemelar ou até mesmo tripla, se o tratamento e a gravidez provocarem complicações que levem ao comprometimento da saúde do bebê e da mãe durante o tratamento a que estiver sendo submetida”
Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi

A pesquisa da fertilidade

24 de setembro de 2014
Home » Sem categoria » A pesquisa da fertilidade

Leia na hora certa - Use o leitor QR Code e armazene este assunto para ler diretamente em seu Smartphone

Arnaldo Schizzi Cambiaghi

 

“O IPGO realiza esta técnica na rotina de suas pacientes”.

 

 

Saiba mais: www.testfert.com.br

 

VÁ DIRETO AO ASSUNTO NESTE TEXTO

A idade da mulher
Gravidez ectópica
Alterações do ciclo menstrual
Mioma
Anabolizantes
Finasterida
Medicamentos que interferem na fertilidade
AMH, Folículos antrais (AFC) e FSH (a reserva ovariana)

 

DOUTOR, EU NÃO CONSIGO ENGRAVIDAR!!!

Esta é a primeira frase que o ginecologista escuta da paciente que deseja engravidar e não consegue. Já neste primeiro contato, é possível observar alguns sinais na aparência física do casal que poderão ajudar na confirmação do diagnóstico, como a idade da mulher e do parceiro, a obesidade de ambos, se a mulher tem pelos em excesso (pensamos em Síndrome dos Ovários Policísticos – SOP) ou até se são tabagistas (pelo odor característico, rouquidão, pigarro próprio dos fumantes crônicos e até, muitas vezes, uma boca com deformações sutis, mas típicas e proporcionais ao tempo de tabagismo). Nesta primeira consulta já se deixa claro que o conceito de fertilidade é do casal e que a responsabilidade na dificuldade em ter filhos pertence aos dois, conforme demonstra o Quadro 2-1. É claro que existem algumas situações que contradizem essa afirmação, como nos casos de homens com vasectomia ou mulheres com falência ovariana.
Quanto ao lado masculino, muitos maridos, para se esquivarem do exame do sêmen (espermograma), gostam de concluir antecipadamente que são férteis, relatando histórias de que “engravidaram uma namorada quando eram mais jovens”. Não importa o que digam o espermograma inicial é obrigatório.
 
 
 
QUADRO 2-1. CAUSAS DE INFERTILIDADE*
 
Quadro 2-1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*excluindo os 15% de casais onde não se encontra uma causa (Infertilidade sem Causa Aparente)

O QUE FAZER? PENSE NO CONCEITO INICIAL: O QUE É INFERTILIDADE?

Um indivíduo, homem ou mulher, é considerado infértil quando apresenta alterações no sistema reprodutor que diminuem sua capacidade ou o impedem de ter filhos. A princípio, um casal é considerado infértil quando, após de 12 a 18 meses de relações sexuais frequentes e regulares, sem nenhum tipo de contracepção, não consegue a gestação. Entretanto, esse período pode variar de acordo com a idade da mulher e a ansiedade do casal.
Não é necessário que um casal cuja mulher tenha mais de 35 ou 38 anos espere esse tempo, pois nesta fase de vida em que a fertilidade diminui gradativa e progressivamente, seis meses valem muito, e, por isso, poderemos abreviar esse período para 6 a 12 meses, ou menos.
Após os 40 anos, 3 ou 4 meses já são suficientes. Nem sempre os casais, mesmo os mais jovens, com menos de 30 anos, aguentam a ansiedade e esperam os 18 meses. Por isso, mesmo tendo conhecimento do período teórico de espera, muitas vezes antecipamos a pesquisa para ajustar a ciência ao bom-senso e ao bem-estar do casal (Quadro 2-2).

QUADRO 2-2. SUGESTÃO DO IPGO DE QUANTO TEMPO ESPERAR PARA COMEÇAR A PESQUISA DA FERTILIDADE

 

Quadro 2-2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*variável de acordo com ansiedade e histórico do casal

A chance de um casal que não tenha nenhum tipo de problema e mantenha relações sexuais nos dias férteis conceber por meios naturais é de 20% ao mês. Com o auxílio de técnicas de reprodução assistida, a taxa de gestação pode chegar a 50% ao mês em mulheres com menos de 35 anos.
Portanto, para se definir o momento ideal para o início da pesquisa, deve-se levar em consideração o histórico do casal (por exemplo, se tem antecedentes como SOP ou endometriose, o tempo de infertilidade (quanto mais tempo, maior a dificuldade) e a idade da mulher, pois, após os 35 anos diminuem as chances de gravidez e aumentam as possibilidades de abortos e anomalias cromossômicas (aneuploidias). A ansiedade do casal também deve ser considerada, pois, uma vez definido o desejo de ter filhos, a cada mês que o bebê não vem, ela aumenta mais e mais (Quadro 2-3).
 
 
 
QUADRO 2-3. PONDERAÇÕES IMPORTANTES NA PESQUISA E CONTROLE DA FERTILIDADE
 
 
Quadro 2-3

 

 

 

 

 

 

 

 

A infertilidade pode ser primária, quando o casal nunca engravidou, ou secundária, quando já houve gestação anterior. Antigamente utilizava-se o termo esterilidade como sendo a impossibilidade de gestação e infertilidade quando havia a diminuição da capacidade de conceber. Atualmente as duas palavras são geralmente empregadas como sinônimos. Estudos mostram que até 15% dos casais em idade fértil apresentam dificuldade para engravidar, e metade deles terá de recorrer a tratamentos de reprodução assistida.

A investigação do casal infértil começa pela anamnese. Um questionário detalhado ajuda muito a verificar detalhes da saúde do casal veja em: FORMULÁRIO PRÉ-CONSULTA DO IPGO
 
 
A Idade da Mulher

INVESTIGAÇÃO INICIAL

1- Avaliar a idade da mulher e também a do homem

O número de homens e mulheres que desejam ter filhos em uma idade mais avançada vem crescendo nos últimos anos e, com isso, cada vez mais aumenta o interesse pelo efeito do envelhecimento na capacidade de ter filhos.

Segundo algumas publicações, o número de mulheres que tem seu primeiro filho ao redor dos 20 anos diminuiu em um terço desde 1970, ao passo que o daquelas na casa dos 30 ou 40 anos quadruplicou neste mesmo período. Na maioria das vezes, isso se deve à incorporação da mulher de forma intensa na vida profissional, visando o sucesso da sua carreira e a busca da estabilidade financeira; ou pelo início tardio de uma vida afetiva que desperte o desejo de ter filhos, seja pela dificuldade de encontrar um parceiro, seja pelo ingresso em um novo casamento. Esta é uma realidade cada vez mais comum (Quadro 2-5).
 
 
QUADRO 2-5. MÉDIA DE IDADE MATERNA NO NASCIMENTO DO PRIMEIRO FILHO AO LONGO DOS ANOS NA EUROPA
Print

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A mulher tem uma queda progressiva da fertilidade ao longo dos anos, o que se acentua após os 35 anos (Quadro 2-6). Paralelamente, há aumento do risco de aborto e de ter filhos com anomalias cromossômicas (Quadros 2-7 e 2-8).
Os homens também têm sua fertilidade diminuída com os anos, não com a mesma intensidade das mulheres, mas de uma forma mais lenta. Da mesma maneira que com as mulheres, notou-se nas últimas décadas um aumento de 20% no número de pais com idade superior a 35 anos. No Brasil e na Europa, neste mesmo período, mais homens entre 50 e 65 anos têm procurado os serviços médicos em medicina reprodutiva com o desejo de serem pais.

Alguns estudos têm demonstrado que em homens com mais idade há um declínio progressivo da fertilidade. Foi comparado o tempo de demora em conseguir a gestação entre dois grupos de mulheres com menos de 35 anos casadas com homens de diferentes faixas etárias. Em um grupo, mulheres casadas com homens entre 25 e 30 anos e em outro, mulheres casadas com homens com mais de 50. As mulheres com maridos mais velhos demoraram mais para engravidar, e suas taxas de aborto foram maiores. Portanto, esses dados comprovam que a gravidez é mais fácil para casais com homens mais jovens A relação da idade do homem com a fertilidade envolve muitos fatores, entre eles, os hormônios sexuais, disfunção erétil, função testicular, alterações genéticas do sêmen e a fragmentação do DNA espermático.
 
 
QUADRO 2-6. QUEDA DA TAXA DE FERTILIDADE DE ACORDO COM A IDADE DA MULHER
 
 
Quadro 2-6

 

 

 

 

 

 

 

 

*Queda da Taxa de Fertilidade de acordo com a idade da paciente (valores e estatísticas que se aplicam às mulheres de uma maneira geral, podendo haver grandes variações de mulher para mulher).
*Febrasgo.

 

QUADRO 2-7. RISCO DE ABORTO CONFORME O AUMENTO DA IDADE

 

Quadro 2-7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Gindoff PR & Jewelewicz R. Fertil Steril. 1986;46(6):989-1001.

 

QUADRO 2-8. RISCO DE ANOMALIAS CROMOSSÔMICAS EM RECÉM-NASCIDOS DE ACORDO COM A IDADE MATERNA

 

Quadro 2-8

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Creasy, RK, Resnik R. Creasy and Resnik’s Maternal-Fetal Medicine: Principles and Practice. Philadelphia: Ed. WB Saunders, 1994:7.

Portanto, a perda da fertilidade é um fato inexorável para homens e mulheres, embora a idade da mulher conta muito mais.

2- Pense nos hábitos e no estilo de vida do casal

Tabagismo (cigarro): o cigarro é considerado o veneno reprodutivo mais potente do século 21. Vários estudos científicos comprovam seu efeito deletério sobre a saúde reprodutiva. A fumaça do cigarro contém centenas de substâncias tóxicas, incluindo a nicotina, monóxido de carbono, polônio radioativo, alcatrão, fenol, ácido fórmico, ácido acético, chumbo, cádmio, níquel, benzopireno e substâncias radioativas, as quais afetam a função reprodutiva em vários níveis. No homem, alteram a produção dos espermatozoides e a qualidade do sêmen, além de levar ao aumento na fragmentação do DNA do espermatozoide, o que está associado à maior taxa de aborto e de insucesso nos tratamentos de reprodução.
Na mulher, o cigarro altera a motilidade tubária, a divisão das células do embrião, formação do blastocisto, muco cervical, receptividade endometrial (mesmo com óvulos/embriões doados) e implantação. Mulheres fumantes também podem apresentar maior incidência de irregularidade menstrual e amenorreia, além de acelerar a menopausa. A fertilidade é reduzida em 25% nas mulheres que fumam até 20 cigarros ao dia, e em 43% naquelas que fumam mais de 20 cigarros, ou seja, o declínio da fertilidade tem relação direta com a dose de nicotina. Durante a gestação, o fumo pode aumentar a incidência de restrição de crescimento fetal, placenta prévia, descolamento prematuro da placenta e parto prematuro. Deve-se sempre estimular as pessoas a pararem de fumar, especialmente os casais que estão tentando engravidar. No caso do homem, isso é principalmente importante quando apresentam contagem de sêmen no limite inferior à normalidade. Entretanto, mesmo com contagem de sêmen normal, o fumo deve ser desencorajado.
Frente a seu grande efeito deletério sobre a saúde reprodutiva, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) publicou nota alertando sobre todos os efeitos do cigarro quanto à fertilidade humana, que estão listados abaixo:

• Homens e mulheres fumantes têm chance três vezes maior de sofrerem de infertilidade quando comparados àqueles que não fumam.
• Tentando estabelecer uma relação causal, os estudos atuais mostram que 13% dos casos de infertilidade feminina podem ser atribuídos ao cigarro. Lembrando que dez cigarros por dia já são suficientes para prejudicar a fertilidade.
• Mulheres tabagistas crônicas entrarão mais cedo na menopausa (um a quatro anos antes), o que pode ser atribuído à aceleração da diminuição da reserva ovariana.
• O hábito de fumar está associado a um aumento do risco de abortamento (aumento em até 27%) e a gravidez ectópica.
• O cigarro na gravidez prejudica a fertilidade do filho homem.
• Filhos de mães fumantes têm, em média, mais dificuldade no aprendizado escolar.
• Filhos de pais fumantes têm maior chance de câncer.
• Mutação genética é um possível mecanismo pelo qual o cigarro pode afetar a fecundidade e a função reprodutiva.
• Estudos científicos demonstraram que mulheres fumantes necessitam de duas vezes mais tentativas de fertilização in vitro (FIV) que as não fumantes, além de precisarem, nesses tratamentos, de uma quantidade maior de medicamentos.
• Homens que fumam têm muito mais espermatozoides anormais que os não fumantes, e a porcentagem de anormais está diretamente ligada ao número de cigarros fumados por dia.
• Fumantes passivos (tanto homens como mulheres) com exposição excessiva ao cigarro também têm maior incidência de todas as alterações descritas acima.

E MAIS: estudos têm demonstrado que bebês nascidos de mães que fumam tendem a nascer prematuramente, têm menor peso ao nascer e são mais propensos a morrer de síndrome da morte súbita infantil (SMSI). Filhos de fumantes também podem ter pior desempenho em testes de QI e seu crescimento físico pode ser mais lento. Além disso, as mulheres que frequentam locais de fumantes, com exposição ao fumo passivo, são mais propensas a ter bebês de baixo peso. Também pode haver perigos do “fumo de terceira mão” – os produtos químicos, partículas e gases de tabaco que são deixados no cabelo, roupas e mobiliário.

Drogas recreativas: a cada ano, novas drogas são introduzidas no “mercado do vício”, mas nem todas são possíveis de serem estudadas em relação à fertilidade, embora o prejuízo causado por elas possa ser suspeitado quando comparadas a outras mais antigas. Todas elas agem no sistema nervoso central: estimulando, bloqueando e interferindo nos hormônios, principalmente do eixo hipotálamo-hipofisário, fundamentais para o bom funcionamento do sistema reprodutor. Por isso, podemos afirmar que perturbam a fertilidade tanto do homem como da mulher.

Álcool: em doses diminutas, o álcool possui discreta ou nenhuma ação sobre as funções reprodutiva e sexual. O consumo crônico e prolongado, no entanto, prejudica ambos esses aspectos, podendo atingir mais de 80% do comprometimento de tais funções nos dependentes. Uma meta-análise indicou que as mulheres que bebem três ou mais drinques por dia têm 60% maior risco de apresentar infertilidade, quando comparadas àquelas que não bebem. Nesses estudos não houve distinção entre o tipo de bebida, incluindo vinho, cerveja e coquetéis. Abaixo, listamos os possíveis efeitos do excesso de álcool na fertilidade e na sexualidade dos homens e mulheres.

No homem:

• Diminui o desempenho e o desejo sexual.
• Atrofia as células de Leydig, produtoras de testosterona, causando infertilidade.
• Provoca danos à irrigação sanguínea, causando impotência ligada à falta de ereção.
• Diminui o número e a qualidade dos espermatozoides.
• Está associado a comportamento sexual de risco, levando às DSTs.

Na mulher:

• Interfere no eixo hipotálamo-hipofisário, podendo levar a oligo/amenorreia e anovulação.
• Aumenta o risco de infertilidade.
• Aumenta o risco de abortamento.
• Interfere no desenvolvimento fetal.
• Está associado a comportamento sexual de risco, levando às DSTs.
• Leva a ganho de peso, pois bebidas alcoólicas são hipercalóricas.

Cafeína: alta dose de cafeína (> 500 mg/dia, equivalente a 5 xícaras por dia) está associada à queda da fertilidade feminina. Durante a gravidez, consumir mais de 300 mg/dia de cafeína aumenta o risco de aborto. O consumo moderado (1 a 2 xícaras por dia) não demonstra efeitos adversos na fertilidade ou na gravidez.

Uma dieta apropriada: ter uma dieta equilibrada antes e durante a gravidez não só é bom para a saúde geral da mãe, mas essencial para um feto nutrido. Além disso, a dieta interfere na fertilidade do homem e da mulher.

3- Peso corporal

O ideal é que a futura gestante tenha um peso adequado antes e durante a gravidez. As mulheres que estão acima do peso podem ter uma gravidez desconfortável, além de possíveis problemas médicos, como hipertensão, pré-eclâmpsia e diabetes. Mulheres que estão abaixo do peso podem ter bebês com baixo peso ao nascer. Quanto mais em forma ela estiver, mais fácil a gravidez e o parto poderão ser, mas os exageros deverão ser evitados. Em relação à fertilidade, tanto a obesidade quanto o baixo peso podem ser prejudiciais. As estatísticas demonstram que até 12% das causas de infertilidade são resultados do excessivo ou baixo peso. Mulheres obesas demoram até duas vezes mais tempo para engravidar em relação àquelas no peso adequado. Por outro lado, pacientes abaixo do peso normal podem levar até quatro vezes mais tempo. Ambos os casos apresentam distúrbios ovulatórios. Pacientes com extremo baixo peso podem inclusive entrar em amenorreia hipotalâmica. A obesidade, além de alterações ovulatórias, leva a menor taxa de implantação e maior taxa de aborto.

4- Antecedentes de doenças genéticas

Testes de sangue realizados antes da gravidez podem detectar possíveis distúrbios genéticos na família como anemia falciforme, a doença de Tay-Sachs e a Fibrose Cística, além de outras desordens genéticas, podem ser detectados por testes de sangue antes da gravidez. Se houver risco para qualquer doença hereditária, este deve ser avaliado e testes de triagem serão necessários.

5- Histórico médico pessoal do casal

É necessária uma avaliação do histórico médico pessoal do casal, principalmente da mulher, para determinar se há alguma condição médica que possa exigir cuidados especiais durante o tratamento e na gravidez, como epilepsia, diabetes, pressão alta, anemia, alergias, trombofilias, além de cirurgias e gestações anteriores complicadas. Essas doenças podem exigir cuidados extras e devem ser acompanhadas por especialistas antes que a gravidez ocorra. Uma investigação do histórico familiar, tanto materno como paterno (ou, na falta do pai, de algum membro familiar dele), deve ser feita para que se avalie as condições médicas de doenças que possam interferir na gravidez ou no parto.

Além disso é muito importante avaliar a história obstétrica, ou seja, todas as gestações anteriores, uma vez que podem indicar um risco em uma gravidez subsequente. Isso inclui: abortamentos anteriores e curetagens (que podem levar a sinéquias intrauterinas); infecções puerperais (que podem levar a danos endometriais e tubo-peritoneais); malformações fetais e antecedente de gestação ectópica.

Gravidez Ectópica

Gestação ectópica é uma gestação fora do útero. Ocorre nas trompas na maioria das vezes, mas pode ocorrer também nos ovários e cavidade peritoneal. Está fortemente ligado a uma alteração da tuba, em geral secundária a algum processo inflamatório ou infeccioso, que provoca perda de sua função normal. Assim, o embrião não consegue chegar ao útero, se implantando no meio do caminho. Gravidez ectópica deve sempre ser interrompida pelo risco de romper a trompa, levando a hemorragia importante. Pode ser tratada com cirurgia ou medicamentos que fazem a gestação parar de evoluir. Pacientes que já tiveram uma ectópica têm risco aumentado de uma nova ectópica, uma vez que a trompa pode estar prejudicada. Para uma maior avaliação da trompa, deve ser realizada uma histerossalpingografia.

6- Estado de vacinação

Mulheres que desejam engravidar devem estar em dia com o calendário de vacinação. Uma avaliação da imunidade da paciente é importante, principalmente contra a rubéola, uma vez que contrair a doença durante a gravidez pode causar defeitos congênitos graves no bebê.

7- Avaliação das doenças infecciosas

As mais importantes são as sorologias para Sífilis, Hepatites A, B e C, HIV 1 e 2, HTLV 1 e 2, Rubéola, Toxoplasmose, Citomegalovírus e Chagas. Na verdade, essa triagem deve ser feita independentemente da fertilidade, para qualquer mulher que deseja gestar. Chamam a atenção a Rubéola, Toxoplasmose e o Citomegalovírus, por apresentarem quase nenhum sintoma nos adultos, serem mais comuns do que se imagina e causarem danos graves e irreversíveis à saúde do bebê.

8- Outros exames

Hemograma completo, Glicemia de jejum, Tipagem Sanguínea ABO-Rh, Coombs Indireto, avaliação da tireoide, Urina I (com urocultura) e conteúdo vaginal (na mulher).

9- Prevenção de defeitos congênitos

Três meses antes, a futura grávida deverá tomar ácido fólico. São necessários 400 microgramas (0,4 mg) de ácido fólico por dia, e ele pode ser encontrado em alimentos como os vegetais de folhas verdes, nozes, feijão, cereais matinais fortificados, legumes, frutas como laranjas, melão e banana, grãos, leite e carnes de órgãos (como fígado de frango), além de alguns suplementos vitamínicos. O ácido fólico ajuda a reduzir o risco de defeitos congênitos do tubo neural. Mulheres que não recebem ácido fólico suficiente durante a gravidez têm mais probabilidade de ter um bebê com alterações encefálicas ou na medula espinhal. É importante tomar ácido fólico antes de engravidar, porque esses problemas se desenvolvem muito cedo na gravidez – apenas 3 a 4 semanas após a concepção. As vitaminas C e E, por suas ações antioxidantes, também contribuem para a diminuição do risco de anomalias cromossômicas, além de promover a melhora da fertilidade feminina e masculina.

10- Exposição a substâncias nocivas:

Exposição ocupacional: as toxinas do meio ambiente, produtos químicos como os solventes, pesticidas e alguns metais como o chumbo e o manganês e exposições ao calor em algumas profissões (o calor em excesso é nocivo aos espermatozoides) podem prejudicar a fertilidade masculina (leia mais sobre o assunto em: o efeito do meio ambiente na fertilidade). Os efeitos tóxicos geralmente são reversíveis assim que a ação do produto é descontinuada.

Meio ambiente: as mulheres grávidas devem evitar a exposição a substâncias químicas e tóxicas, como o chumbo e pesticidas, e à radiação. Mudanças ambientais têm preocupado autoridades no mundo todo. Muitas delas têm sido causadas pela evolução tecnológica gerada pelo próprio homem, e interferem no bem-estar das pessoas, agredindo vários órgãos do corpo humano e causando problemas de saúde. Existem alterações no meio ambiente que estão muito próximas de nós no dia a dia, e prejudicam a fertilidade dos casais, fato que tem sido demonstrado em experiências laboratoriais realizadas em animais. Embora muitos desses efeitos maléficos não sejam comprovados no ser humano, existem evidências que sugerem a interferência negativa dessas substâncias na fertilidade. Com os dados até hoje obtidos, podem ser tiradas algumas conclusões quanto a prevenção, evitando, dentro do possível, o contato com essas toxinas. Essa tarefa preventiva, na maioria das vezes é complicada e de difícil incorporação à rotina das pessoas, mas estar ciente destes problemas poderá ser útil e ainda exigirá algumas reflexões. São várias as substâncias, mas as mais conhecidas e discutidas são as dioxinas, furanos e PCBs.

Dioxinas, furanos e PCBs: as dioxinas, que agrupam substâncias como o furano e PCBs, formam um grupo de compostos muito tóxicos ao ser humano. São produzidas principalmente na natureza pela queima de produtos orgânicos que contêm cloro, na presença de pouco oxigênio (combustão). Muitos países da Europa (e também o Japão) julgaram que a queima do lixo em incineradores era a solução perfeita para que se livrassem do lixo doméstico, mas descobriram que o resfriamento dos gases provenientes dessa combustão liberava as dioxinas e furanos que, ao se propagarem pela atmosfera, depositavam-se no meio aquático e no solo.
Em contato com os pastos, elas passam para os animais e para a água. Por serem pouco solúveis acumulam-se em sedimentos na natureza e em regiões do organismo dos seres vivos, como o tecido gorduroso. São transmitidas ao ser humano pelo alimento animal, como linguiça, queijos, leite, manteiga e carne, entre outros, e até no leite materno. Entretanto isso não significa que as mães não devam amamentar, pelo contrário, pois os efeitos benéficos desse ato são ainda muito superiores.
 
 
QUADRO 2-9. PRODUTOS ENCONTRADOS NO MEIO AMBIENTE QUE INTERFEREM NA FERTILIDADE
Quadro 2-9

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Schettler T. Explore (NY). 2006 Jul-Aug;2(4):357-60.

IMPORTANTE: é bem difícil, praticamente impossível, evitar o contato com diversas dessas substâncias. Mas o conhecimento desse prejuízo é importante, pois, muitas vezes, algumas medidas podem ser tomadas para evitar esse contato. Entretanto, os interessados não devem, de forma alguma, ter um comportamento obsessivo e diferente daqueles que levam uma vida normal.

Medicamentos que interferem na fertilidade

11- Avaliação dos efeitos dos remédios que o casal já estiver tomando

É importante que o casal tenha conhecimento de que alguns medicamentos podem interferir negativamente na gestação e por isso precisam ser evitados. Na dúvida, devem conversar com o especialista que receitou.

Antihipertensivos: alguns antihipertensivos podem atrapalhar a fertilidade masculina. É o caso dos bloqueadores de cálcio, como Amlodipina e Nifedipina (Adalat). Esses medicamentos não alteram os parâmetros do espermograma mas atrapalham a chance de fertilização do óvulo, mesmo em tratamentos de fertilização assistida uma vez que alteram a membrana celular. Outra classe de antihipertensivos que podem interferir na fertilidade do homem são os beta- bloqueadores (como o propanolol)que podem atrapalhar a motilidade dos espermatozoides.

Finasterida: é utilizada por muitos homens para a queda de cabelos e tratamento da calvície. Foi utilizada inicialmente para tratamento de hiperplasia benigna da próstata (HBP). Entretanto a finasterida pode interferir na fertilidade do homem, prejudicando a qualidade do sêmen, mesmo com o uso da dose de 1mg/dia e principalmente naqueles que já apresentam alguma causa de infertilidade, como a varicocele, obesidade ou oligospermia. A finasterida ampliaria o efeito negativo destas situações sobre os testículos. A Finasterida inibe a ação da enzima que transforma a testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Com esse bloqueio, a testosterona age menos no organismo, inibindo o crescimento da próstata (daí ser usada no tratamento da HBP), e combatendo a perda de cabelos em homens com alopecia androgênica. Portanto a diminuição da concentração de diidrotestosterona no organismo leva à alteração na produção de espermatozoides nos testículos, principalmente se já estiverem sofrendo algum tipo de problema. Uma vez interrompido o uso da finasterida há reversão da infertilidade após cerca de três meses.

Anabolizantes

Anabolizantes: interferem na fertilidade do homem e da mulher e vem se tornando comum nas academias. Na busca por um corpo perfeito em pouco tempo muitos jovens se arriscam com seu uso, mesmo cientes da ilegalidade e dos efeitos negativos.
Os anabolizantes (esteroides androgênicos anabólicos) são hormônios sintetizados em laboratório com a ação semelhante à testosterona, um hormônio produzido pelos testículos e em menor quantidade pelos ovários. Essa substância acelera a síntese de proteínas que formam os músculos, aumentando-os de tamanho. Aumenta também a quantidade de fibras musculares, o que faz com que o usuário possa suportar cargas maiores, ganhando força, potência e maior tolerância ao exercício físico.
A testosterona é essencial para produção de espermatozoides e tem efeito direto sobre a fertilidade. Quando se consome a testosterona sintética (anabolizantes) o organismo suspende a produção de gonadotrofinas (substâncias produzidas na base do cérebro – hipófise – que estimulam os órgãos reprodutores) e, como consequência, bloqueia a produção dos espermatozoides. Na maioria das vezes esse bloqueio é reversível após pelo menos 3 meses de interrupção do seu uso, mas em até 20% dos casos esse bloqueio é definitivo, levando à infertilidade permanente, principalmente se usada por longos períodos. Nas mulheres, a testosterona em altas doses também bloqueia as gonadotrofinas e pode acarretar interrupção da menstruação.
Outros efeitos preocupantes são o risco de alteração da função hepática (coagulação do sangue) e tumores hepáticos, pois estes hormônios são metabolizados no fígado. Como efeitos secundários observam-se aumento da agressividade, aumento da oleosidade da pele e acnes, engrossamento da voz, calvície, excesso de pelos no corpo, impotência sexual, aumento da pressão, sobrecarga cardíaca e aumento dos níveis de colesterol.

Quimioterapia e radioterapia: dependendo do tipo de quimioterápico e local da radioterapia, podem prejudicar permanentemente a fertilidade masculina e, por isso, homens que não têm filhos devem ser alertados sobre o congelamento de sêmen ou biópsia testicular seguida de congelamento como opções para a preservação da fertilidade antes de qualquer tratamento oncológico (leia mais sobre o assunto em “Preservação da fertilidade em pacientes com câncer”).

Outros Medicamentos: existem ainda vários outros medicamentos que podem influenciar negativamente a fertilidade masculina. Entre eles estão a espirolactona (nome comercial Aldactone), um diurético de fraca potência; a colchicina (nome comercial Colchis) e alopurinol (nome comercial Zyloric), para o tratamento da gota; cimetidina e ranitidina (nome comercial Tagamet e Zylium), para o tratamento de gastrite e úlceras; cetoconazol (nome comercial Nizoral), para o tratamento de micoses; antibióticos a base de nitrofurantoina, eritromicina, sulfadiazina, tetraciclina e gentamicina (embora pareçam alterar a fertilidade apenas em experimentos in vitro); alguns redutores do colesterol; agentes psicoterápicos tricíclicos, fenotiazida e antipsicóticos, entre outros. Há ainda medicamentos que podem levar à ejaculação retrógrada (o sêmen ao invés de sair pela uretra, retorna para a bexiga). São eles: os alfabloqueadores, utilizados no tratamento de doença da próstata e na hipertensão arterial, como Prazosim (minipress) e Terazosin (Hydrin).

12- Exercícios físicos

Os exercícios em demasia afetam a ovulação e a concentração dos espermatozoides. Na mulher impedem a ovulação e no homem abaixam o nível de testosterona. Homens que realizam exercícios extenuantes, musculação ou corrida quatro vezes por semana podem ter uma diminuição expressiva na sua quantidade de espermatozoides. Estudos científicos compararam a influência dos exercícios físicos na qualidade do sêmen quando um grupo de homens passava a
praticá-los quatro vezes por semana, ao invés de duas. Houve uma queda da concentração de 43%, diminuição da motilidade e aumento de formas imaturas. Além disso, o uso de bicicleta por cinco ou mais horas semanais está associado à redução na concentração e motilidade do sêmen, por aumento da temperatura na região genital.

Nas mulheres, o exercício em excesso pode levar a perturbações hormonais, ovulação inadequada e até amenorreia.

OBSERVAÇÃO: exercícios moderados são recomendáveis, desde que não haja contraindicação.

13- Relações sexuais

Casais que desejam engravidar têm que estar cientes de que a eficiência reprodutiva aumenta com o número das relações, sendo a frequência ideal a cada um ou dois dias, num total de pelo menos duas a três vezes por semana. É muito importante conversar com o casal sobre sua vida sexual, pois isso pode dar informações importantes na investigação da fertilidade. Deve-se saber se há ereção e ejaculação, se há penetração completa, se o parceiro ejacula dentro da vagina ou se usa algum lubrificante. É importante alertar o casal que lubrificantes, mesmo à base de água, podem atrapalhar a motilidade dos espermatozoides. Outro ponto importante é saber se o casal tem relações durante o período fértil. Em relação a posições, ao contrário de algumas crenças populares, isso não interfere na chance de gravidez.

EXAMES QUE AVALIAM A FERTILIDADE DO CASAL

Para um casal engravidar, é necessário que tanto o homem como a mulher tenham um organismo saudável e funcionando adequadamente. A mulher deve ovular, e o caminho a ser percorrido pelo óvulo e pelos espermatozoides deve estar completamente livre. A gravidez pressupõe relações sexuais adequadas que devem acontecer na época da ovulação, seguida da fecundação e da implantação dos embriões (Quadro 2-10).

Na pesquisa da fertilidade, os fatores são estudados levando-se em consideração cada uma das etapas no processo de reprodução. Para cada uma delas existem exames básicos que devem ser solicitados, alguns já na primeira consulta, com o objetivo de afastar ou confirmar hipóteses diagnósticas. Resumindo de uma forma didática, são seis os fatores que devem ser pesquisados e que podem atrapalhar um casal para ter filhos. Entretanto, deve-se considerar que cerca de 15% dos casais não conseguem a gestação durante um determinado período e não se encontram justificativas médicas para esta dificuldade, a chamada Infertilidade Inexplicável ou Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA), o que consideraremos a partir de agora como um sexto fator.
 
 
QUADRO 2-10. FATORES QUE INFLUENCIAM A SAÚDE REPRODUTIVA
 
 
Alterar cor como o livro - Julio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os fatores de infertilidade são:

NA MULHER

I. Fator hormonal e fator ovariano: problemas hormonais da mulher e da ovulação;
II. Fator anatômico: pesquisa da integridade anatômica do útero, tubas, colo uterino e aderências;
III. Fator endometriose;
IV. Outros: fatores imunológicos e trombofilias.

NO HOMEM

V. Fator masculino.

OS DOIS

VI. Infertilidade de causas genéticas/cromossômicas;
VII. Infertilidade Inexplicável – Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA).

 

Alterações do ciclo menstrual

 

NA MULHER

I- Fator hormonal e fator ovariano

Esse fator representa cerca de 50% dos casos de infertilidade por causa feminina, por anovulação ou por um defeito da mesma (disovulia). A pesquisa hormonal pode ser dividida em:

A- Pesquisa hormonal básica: para toda paciente infértil, deve-se descartar alterações tireoidianas e de prolactina. Assim, sempre devem ser pedidos:

Prolactina
TSH
T4 livre
Anticorpos antitireoidianos (antitireoglobulina e antiperoxidase)

 

AMH, Folículos antrais (AFC) e FSH

 

B- Pesquisa de reserva ovariana

a) FSH, LH e Estradiol (entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual) – FSH maior que 10 mUI/ml e estradiol maior que 35 pg/ml geralmente sugerem uma baixa reserva ovariana. Assim, é importante saber que não se pode adiar muito o tratamento e a tendência será avançar mais rapidamente para técnicas de reprodução assistida de alta complexidade, além de alertar ao risco de a paciente ser uma “má respondedora” aos estímulos hormonais (Poor Responder). Por outro lado, apesar de FSH menor que 10 mUI/ml e estradiol menor que 35 pg/ml geralmente sugerirem uma “boa respondedora” aos estímulos hormonais (Good Responder), este exame é pouco sensível, assim, sua normalidade não descarta uma baixa reserva ovariana.

b) Inibina-B: é um hormônio produzido pelas células da granulosa de folículos antrais e dominantes que inibe a secreção de FSH, contribuindo para a atresia dos folículos não dominantes durante o período pré-ovulatório e, assim, facilitando a formação de um único folículo ovulatório (Figura 2-1). Pode ser utilizado como biomarcador de reserva ovariana pois reflete indiretamente o pool de folículos antrais. Com a diminuição progressiva da reserva ovariana há uma queda deste hormônio, com o consequente aumento do FSH. Como a queda da inibina B precede o aumento do FSH, este exame é mais sensível que a dosagem somente do FSH pra prever a resposta ovariana.

c) Hormônio antimulleriano (AMH): é um hormônio produzido pelas células da granulosa de folículos pré-antrais e antrais iniciais (menores de 8 mm) (Figura 2-1). Assim, reflete o número não só dos folículos em desenvolvimento como em todos os estágios anteriores. Dessa forma, quanto maior o número de folículos remanescentes, maior sua concentração sérica, sendo, juntamente com a contagem de folículos antrais, a medida mais fidedigna de reserva ovariana e o principal preditor de resposta ovariana ao estímulo hormonal. Esse exame tem ainda a vantagem de poder ser dosado em qualquer fase do ciclo menstrual, já que apresenta pouca variabilidade inter e intraciclo (Quadro 2-11).
 
 
FIGURA 2-1. SECREÇÃO HORMONAL PELOS FOLÍCULOS OVARIANOS

 

Figura 02.01

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*La Marca et. al, Hum Reprod, 2009;24:2264
 
 

QUADRO 2-11. VARIAÇÃO INTRACICLO DO AMH
 
 

Quadro 2-11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*La Marca et al. Hum Reprod Update. 2010;16(2):113-30.

Considerando que a reserva ovariana diminui ao longo dos anos de vida da mulher, é esperado que haja uma curva de declínio do AMH, que é fisiológica, tornando-se indetectável cerca de cinco anos antes da menopausa (Quadro 2-12). Assim, é esperado que uma mulher mais velha tenha valores de AMH menores que as jovens. Entretanto, independentemente da idade, a dosagem do AMH prediz muito bem o risco de uma má resposta, tem a vantagem ainda de predizer as pacientes de risco de uma hiper-resposta, podendo auxiliar na escolha do melhor protocolo de estimulação e dosagem, evitando complicações como a síndrome da hiperestimulação ovariana. Uma ressalva que se faz é que este exame consegue prever a resposta ovariana em quantidade (número de óvulos e embriões conseguidos), mas não prediz qualidade oocitária e, portanto, não prediz bem a chance de gravidez. A idade ainda é o melhor preditor de gravidez.
 
 
QUADRO 2-12. CURVA DO AMH AO LONGO DOS ANOS
 
Quadro 2-12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*La Marca et al. Hum Reprod. 2006;21(12):3103-7.

Em relação a prognóstico da resposta, a interpretação dos resultados do AMH deve ser feita independentemente da idade. Não existe consenso sobre valores de corte. No Quadro 2-13 listamos o que o IPGO adota.
 
 
QUADRO 2-13. AMH X RESPOSTA OVARIANA ESPERADA
 
 
Quadro 2-13

 

 

 

 

 

 

 

 

Obs.: alguns laboratórios emitem resultado do AMH em pmol/L. Neste caso, a conversão é: pmol/L ÷ 7,14 = valor em ng/mL.

Além disso, o resultado também deve ser interpretado como esperado ou não para a idade, pois mulheres com valores de AMH abaixo do esperado devem ser alertadas sobre o risco de uma falência ovariana precoce.

C) Ultrassonografia: realizada entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual, avalia o tamanho, o volume dos ovários e a presença de folículos antrais. A contagem de folículos antrais (antral follicle count – AFC) consiste em contar todos os folículos de tamanho entre 2 e 10 mm. Tem a vantagem de ser mais barata que a dosagem do AMH, com acurácia semelhante em predizer tanto má resposta como hiper-resposta. Apresenta a desvantagem de necessitar ser feito em um período específico do ciclo e muita variação inter-observador.
 
 
QUADRO 2-14. CONTAGEM DE FOLÍCULOS ANTRAIS (AFC) X RESPOSTA OVARIANA ESPERADA
 
Quadro 2-14

 

 

 

 

 

 

 

 

D- Pesquisa da ovulação: pela história, já podermos inferir se os ciclos são ovulatórios ou não. Mulheres com ciclos regulares têm alta chance de estar normalmente ovulando, enquanto pacientes com irregularidade geralmente são anovulatórias. Entretanto, pesquisar a ovulação é essencial na investigação. Pode ser feita por meio de métodos indiretos que, em conjunto, dão o diagnóstico da existência ou não da ovulação. São eles:

a) Dosagens de progesterona sérica no 21º dia do ciclo menstrual: valores acima de 1,5 mg/ml são sugestivos de ovulação.

b) Biópsia de endométrio: feita entre 19º e 26º dia do ciclo menstrual, através de anátomo patológico mostrando endométrio secretor. Não indicamos de rotina, considerando que temos outros exames menos invasivos.

c) Ultrassonografia transvaginal seriada: por meio deste exame, acompanha-se o crescimento do folículo que, nos momentos que antecedem a ovulação, atinge seu tamanho máximo (mais ou menos 20 mm). Se houver ovulação, este folículo se transforma em corpo lúteo. O acompanhamento ultrassonográfico da ovulação prevê facilmente o dia mais fértil da mulher em determinado mês.

MIOMAS

II – Fator anatômico

Consiste na pesquisa de alterações do órgão reprodutor, que possam impedir o encontro do espermatozoide com o óvulo dentro das tubas e a consequente fecundação ou que dificultem a implantação do embrião no endométrio e seu crescimento. O útero e as tubas devem exibir normalidade na sua morfologia e no seu funcionamento. As alterações ocorrem em 20% a 30% dos casos de infertilidade de causa feminina. Podem ser alterações congênitas (malformações mullerianas), patologias adquiridas (miomas ou pólipos) ou sequelas de processos inflamatórios, infecciosos ou procedimentos cirúrgicos.

Essa pesquisa consiste em:

Pesquisa Básica

Ultrassonografia transvaginal: é importante na avaliação inicial da paciente infértil. Pode-se usar o ultrassom vaginal para diagnosticar uma variedade de problemas:

Útero:

• miomas uterinos (tamanho e localização);
• anomalias estruturais, como alterações do formato do útero (útero bicorno ou didelfo);
• pólipo endometrial (Figura 2-2);
• alterações anatômicas do endométrio.

Ovários:

• cistos;
• tumores;
• aspecto policístico;
• reserva ovariana (CFA).

Os quadros clínicos sugestivos de endometriose profunda com comprometimento intestinal e outros órgãos podem ser avaliados pelo ultrassom transvaginal, precedido de preparo intestinal e realizado por um médico especialista.
 
 
FIGURA 2-2. PÓLIPO ENDOMETRIAL AO ULTRASSOM
 
 
figura 2-2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Histerossalpingografia: é um raio X contrastado. Constitui um importante exame para que o ginecologista avalie a integridade morfológica e funcional das tubas e da cavidade uterina, o que é essencial na avaliação da fertilidade. O médico deve estar envolvido diretamente na interpretação e, sempre que possível, acompanhar a própria execução do procedimento. A avaliação das imagens do exame deve ser cuidadosa, verificando a presença de estenoses, sinéquias, septos, pólipos, malformações uterinas, obstruções tubárias e lesões mínimas tubárias. Os casos que demonstrem anormalidade podem seguir-se de videolaparoscopia e videohisteroscopia diagnósticas para prosseguir na avaliação. É interessante observar que até 20% das histerossalpingografias normais podem mostrar anormalidade na videolaparoscopia. Alguns achados anormais na histerossalpingografia podem ser vistos na Figura 2-3.
 
 
FIGURA 2-3. ALTERAÇÕES VISTAS PELA HISTEROSSALPINGOGRAFIA
 
 
figura 2-3

 

 

 

 

 
*imagens cedidas por Dra. Cassia Danielle Domit

Avaliação Especializada

Histerossonografia: neste procedimento ambulatorial, uma sonda especial é colocada no útero por via vaginal, e, através dela, injeta-se um fluido que distende a cavidade uterina, atinge as tubas e a cavidade pélvica. Tudo é acompanhado pelo ultrassom, que permite avaliar a anatomia da cavidade uterina e, indiretamente, dá a ideia da permeabilidade tubária pelo acúmulo de líquido intra-abdominal atrás do útero. Entretanto, este exame não substitui a histerossalpingografia para avaliação das tubas.
 
 
FIGURA 2-4. PÓLIPO ENDOMETRIAL VISUALIZADO POR HISTEROSSONOGRAFIA
 
 
figura 2-4

 

 

 

 

 

 

 

 

Videolaparoscopia: o diagnóstico e o tratamento cirúrgico por videolaparoscopia devem ser feitos por profissionais com experiência em infertilidade e microcirurgia. Ao se detectar determinada alteração durante um exame, o cirurgião especializado em reprodução humana deve ter experiência e capacidade para discernir as reais vantagens de um tratamento cirúrgico. Caso contrário, os traumas dessa cirurgia poderão piorar ainda mais a saúde reprodutiva dessa paciente. As aderências constituem um obstáculo na captação dos óvulos pela(s) tuba(s), que deve(m) estar sem obstrução em toda a sua extensão. Muitas vezes, os órgãos aderem uns nos outros, impedindo que exerçam sua função adequada. Geralmente, isso provém de infecções pélvicas, endometriose ou cirurgias nessa região. O diagnóstico inicial é sugerido pela histerossalpingografia, mas a confirmação é feita por meio da videolaparoscopia, o único exame que permite o diagnóstico definitivo e, concomitantemente, o tratamento cirúrgico. Quando não for possível a resolução pela via endoscópica, deve-se realizar a cirurgia pelas técnicas convencionais, levando-se em consideração os princípios da microcirurgia.

Videohisteroscopia: pode ser feita em consultório. É possível diagnosticar, na cavidade uterina, a existência de alterações, como miomas, pólipos, processos inflamatórios, malformações e aderências, que são corrigidos cirurgicamente, quando necessário, pela mesma via, mas em ambiente hospitalar. A biópsia do endométrio pode ser realizada durante este exame.

Colo do útero: o muco cervical é importante no processo de fertilização, pois é nele que o espermatozoide “nada” em direção ao óvulo a ser fecundado. A análise desse fator é de suma importância e pode ser feita por meio da história clínica, avaliação do muco cervical, da vídeo-histeroscopia (se suspeita de estenose de colo) e da colposcopia.

III – Fator endometriose

Os indícios da existência dessa doença podem ser dados, além da história clínica, pela dosagem no sangue de um marcador chamado CA125 e por imagem suspeita vista pelo ultrassom com preparo intestinal. É recomendável que esse exame seja realizado por profissionais especialistas nessa doença. Em casos mais avançados, devem ser solicitadas ressonância magnética, ecocolonoscopia e urografia excretora. Novos marcadores podem representar, no futuro, uma opção para pesquisa e tratamentos imunológicos dessa patologia. Para confirmar o diagnóstico e graduar o comprometimento dos órgãos afetados pela doença, a videolaparoscopia é essencial, podendo, por meio dela, obter também a cura com a cauterização e ressecção dos focos. Um especialista em endometriose deve avaliar o caso. O tratamento clínico medicamentoso complementar é uma alternativa que deve ser avaliada caso a caso.

IV – Outros fatores

O fator imunológico tornou-se restrito e, atualmente, sua contribuição como causa de infertilidade é bastante limitada. Alguns testes como o pós-coito (ou Sims-Huhner), que consiste em identificar, sob a luz do microscópio, o comportamento dos espermatozoides em contato com o organismo feminino, já há algum tempo deixou de ser utilizado. Normalmente incluímos ainda pesquisa de anticorpos anticardiolipina e anticoagulante lúpico, uma vez que a síndrome dos anticorpos antifosfolípedes pode ter relação com perdas gestacionais muito precoces e falha de implantação. Outros exames, incluindo outras trombofilias – antifosfatidilserina, Fator V de Leiden, mutação da metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR), mutação do gene da protrombina, beta-2-glicoproteína, antitrombina III, proteína C e proteína S; além de dosagem de vitamina D e pesquisa de células Natural killers (NK) no endométrio podem ser indicados em situações específicas. Em alguns casos especiais, e somente nos muito bem selecionados, pode ser solicitado o exame Cross Match, que avalia a “rejeição” do embrião pelo organismo materno, mas tem contra a sua indicação a falta de evidências científicas.

NO HOMEM

V – Fator masculino

A pesquisa da fertilidade no homem é um tópico importante na reprodução humana.

PARA OS DOIS

VI. Infertilidade de causas genético-cromossômicas

As causas genéticas/cromossômicas podem ser consideradas uma causa de infertilidade, já que podem levar à formação de embriões aneuploides, com as consequentes falhas de implantação e a abortos muito precoces, nem sempre fáceis de serem diagnosticados. Dentre as causas cromossômicas, temos as inversões e translocações balanceadas. Essas alterações não causam problema algum em seu portador porque, apesar de o material genético estar “no local errado”, ele o tem em quantidade adequada. Porém, no momento da gametogênese, podem ser produzidos gametas com falta ou excesso de material genético, gerando embriões com uma translocação ou inversão desbalanceada, que em sua maioria são incompatíveis com a vida ou podem gerar crianças com algum déficit cognitivo. Esses indivíduos podem ter como único sinal a infertilidade ou abortos de repetição. Por isso, junto a este grupo de exames, recomendamos acrescentar a pesquisa da integridade cromossômica do casal pelo cariótipo com banda G (46XX e 46XY), mesmo sem histórico de abortos pregressos.

VII – Infertilidade Inexplicável – Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA)

É muito difícil para um casal quando, após o término da realização de todos os exames solicitados (Quadro 2-15), ao retornar ao consultório ou clínica, eles têm como resposta do médico que todos os resultados estão normais. Ante essa normalidade, alguns exames são repetidos, outros novos são sugeridos, uns mais difíceis e outros mais invasivos. Mas, às vezes, ainda assim a resposta final é: NORMALIDADE. Qual o motivo, então, da dificuldade para engravidar? Não tem explicação? A resposta é: NÃO.

A Infertilidade Inexplicável, ou Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA), é a dificuldade de um casal para engravidar sem nenhuma razão aparente, após um ano ou mais de relações sexuais frequentes e sem o uso de qualquer método anticoncepcional. Aproximadamente de 10% a 15% dos casais inférteis pertencem a esse grupo. Sem dúvida, esta “falta de diagnóstico” definitivo leva as pessoas a um sentimento de frustração e angústia bastante grande. Entretanto, não podemos nos esquecer de que a ciência progride numa velocidade tão grande que o desconhecido de hoje poderá, em um curto prazo de tempo, ser esclarecido, e o que hoje não tem explicação, amanhã pode ser explicável e tratável. Portanto, quando se fala em Infertilidade Inexplicável, isso significa inexplicável no presente, e não no futuro. Mas o que interessa ao casal que procura um especialista é um diagnóstico e um tratamento para o presente.
 
 
QUADRO 2-15. PESQUISA FEMININA BÁSICA E AVANÇADA
 
 
Quadro 2-15

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O QUE FAZER?

A conduta médica deve ser baseada na idade da mulher, no tempo de infertilidade, na ansiedade e expectativa do casal e na disponibilidade econômica. Se uma mulher é extremamente jovem e está tentando engravidar há pouco tempo (um ano, por exemplo), pode-se aguardar ou realizar tratamentos simples e conservadores, como a indução da ovulação (ou relação sexual programada, coito programado, “namoro” programado). Para esses casais, a introdução de terapias naturais ou complementares e algumas mudanças de hábitos podem trazer benefícios. Mulheres com mais idade merecem tratamentos com maiores chances de êxito (inseminação intrauterina, FIV), pois, com o passar dos anos, as chances de gravidez diminuem gradativamente. O importante é deixar claro que a Infertilidade Sem Causa Aparente é bastante comum em casais que não conseguem ter filhos.

NO FINAL DA PESQUISA

No final da pesquisa, o ginecologista deverá propor, quando necessário e indicado, um tratamento. Entretanto, deverá estar preparado para responder alguns questionamentos habituais para todos os casais.

DICAS ANTES DA ESCOLHA DO TRATAMENTO

Para que o casal possa tomar uma decisão diante das opções de tratamento, é necessário que tenha a resposta para as seguintes perguntas:

1. Em quanto esse tratamento vai aumentar as chances de gravidez?
2. Quais são os potenciais riscos, complicações e efeitos colaterais?
3. Qual a duração média do tratamento para que se possa obter bons resultados?
4. Em caso de falha, haverá outras alternativas após o término desse tratamento?
5. Qual o custo?

A indicação terapêutica baseia-se na história clínica do casal, juntamente com a avaliação da pesquisa básica laboratorial. Leva-se também em consideração a ansiedade dos dois e as alterações encontradas nos exames realizados. A idade da mulher tem força decisiva por ser um fator que desequilibra as tendências e norteia o melhor caminho para obtenção da gestação. Quase sempre haverá mais do que um tratamento disponível e, na maioria das vezes, caberá ao casal a decisão final de qual escolher. O médico ginecologista ou especialista dará as opções, orientando e ponderando, mas quem decidirá o caminho será a mulher e o homem que desejam ter filho.

Comments

comments